
Mais uma frustrante participação na Série D. Com a eliminação precoce pelo segundo ano consecutivo, o Santa Cruz segue no porão do futebol brasileiro. Em 2011, o clube coral vai utilizar o Estadual mais uma vez como classificatório à 4ª divisão. Vai partir do zero. Uma "rotina" que infelizmente vem tomando conta do Tricolor nas últimas temporadas, na maior derrocada da história do futebol brasileiro. Da A pra D. E na D sem saída.
Com uma eleição presidencial marcada para o final de outubro, o Tricolor irá iniciar a gestão de um novo biênio após a passagem de Fernando Bezerra Coelho, que reorganizou o clube administrativamente, além de ter reformado o estádio. Mas não conseguiu o principal: ligar o motor do carro-chefe.
A situação do Santa preocupa a sociedade como um todo. Um clube que se aproxima do seu centenário na mesma velocidade em que é eliminado em competições nacionais, restringindo até mesmo o número de partidas do time principal. Neste ano foram 32 jogos, sem levar em consideração o Nordestão, deixado à revelia por quase todos os participantes. Com uma dívida de aproximadamente R$ 65 milhões (o balancete final da gestão FBC será divulgado em outubro), a Cobra Coral recomeçará.
Tendo como o objetivo o ano de 2014, quando o clube completará 100 anos, é possível obter três acessos consecutivos no Brasileiro, para chegar ao marcante aniversário na elite do país? É o sonho dos tricolores.
No caso do Santa, seriam necessárias três classificações. Uma arrancada grande. E rara. Até hoje, apenas cinco clubes brasileiros "pegaram o elevador, subindo da C para A em dois anos. Dois deles no Nordeste, América/RN e Vitória, ambos nesta década.
O presidente do Rubro-negro de Salvador nos dois acessos (2006 e 2007), Jorge Sampaio, por exemplo, se espantou ao se dar conta, durante entrevista ao Superesportes, que o Tricolor está um degrau ainda mais abaixo, em consequência da criação da Série D, no ano passado.
"Quando o clube vai muito para baixo, tudo conspira a favor para soerguer a instituição. A torcida frequenta mais. É impressionante. Aqui no Barradão nós tivemos lotação esgotada e isso não acontece agora na Série A. Agora, Série D? É preciso austeridade total, com rigor nas contas da clube. Não dá para ficar tanto tempo sem receita", diz Jorge, que assumiu o Vitória em um momento crítico.
Após o rebaixamento na Série B, quando entrou na zona de rebaixamento justamente na última rodada, o dirigente ainda viu o clube fracassar no campeonato baiano de 2006. "Perdemos a final para o Colo-Colo (Ilhéus). Num estado que só tem três times grandes e você ainda perde de um do interior? Aí você tem como fazer ideia da nossa situação", lembrou Sampaio.
Apesar de ser integrante do Clube dos 13, como o Vitória já estava há mais de um ano longe do Brasileirão, a cota caiu para 25%. Assim como ocorre no Recife, os times baianos também têm acordos com a Justiça do Trabalho.
Lá, o percentual da receita com este destino é 10%, contra 20% do futebol pernambucano. No ano seguinte, a situação se normalizou. Como? Dinheiro, é claro. Mesmo na Terceirona, quando foi vice, o Vitória revelou e vendeu o zagueiro David Luiz, hoje no Benfica, por 1,5 milhão de euros (R$ 3,3 milhões). Garantimos um reforço para disputar uma competição longa, de 38 rodadas, ao contrário das séries mais baixas.
Em Natal, o Aeroporto Internacional Augusto Severo nunca viu uma recepção tão calorosa quanto no dia 26 de novembro de 2006, um dia após o América conseguir subir para a Primeirona, após empatar em 2 x 2 com o Atlético-MG, em Belo Horizonte. Mandatário tanto naquele acesso quanto no de 2005, na Série C, Gustavo Carvalho, hoje deputado estadual tentando a reeleição, montou um time regional, cuja folha foi de R$ 140 mil na 3ª divisão e R$ 220 mil e Segundona.
"O ponto básico é a gestão profissional e comprometimento. Mas não existe 'a' receita. Existe, sim, muito empenho, com o apoio da sociedade. Foi assim que conseguimos dinheiro suficiente para honrar o clube, junto com a renda no Machadão. Espero que seja assimque o Santa volte a ser um dos maiores do Nordeste". Se não existe receita, pelo menos existem algumas dicas, tricolor. Confira os caminhos traçados pelos dois especialistas.
Depoimentos de quem já esteve no buraco
"Formamos um time modesto, mas dentro da possibilidade de vencer a Série C, que era disputada em quadrangulares e com um octagonal final. Pagamos em dia um grupo sem estrelas. Isso foi um aprendizado. Em um grupo com abismo salariais e uma média geral baixa, você cria um problema. Vimos isso em 2004, com Vampeta e Edilson (pentacampeões com a Seleção em 2002). Tivemos que fazer uma ginástica financeira com conselheiros, pois não era pagar só o grupo, tem que pagar cozinheira e zelador. Todo mundo. No segundo ano, na B, tivemos um caixa maior e o clube cresceu. O Santa Cruz tem a torcida do Vitória para sair dessa situação"
(Jorge Sampaio, presidente do Vitória entre 2006 e 2009)
"Tem que zerar as finanças, como uma empresa, com uma administração racional. E, acima de tudo, tem que ter credibilidade. Quando um jogador (reforços) chegava aqui, mesmo com a situação ruim do clube, ele era cobrado. Eu dizia: Natal tem praia com cerveja, mas não pra jogador. Não toleramos atos de indisciplina. O clube não tinha mais o direito de errar. Também estruturamos o CT no período. Oferecer condições faz a diferença. Monitoramos o time o ano todo, com reuniões semanais, na segunda-feira, com a comissão técnica, para avaliação. Deu certo na C e na B. Na A é outro patamar, muito maior financeiramente. Assim, o jogador que não entender a grandeza do Santa Cruz tem que ir embora no mesmo dia."
(Gustavo Carvalho, presidente do América/RN entre 2005 e 2007)
O sonho coral
Série D 2011
Série C 2012
Série B 2013
Série A 2014
Projeto
Imediatismo no projeto só atrapalha, como o Santa cansou de provar, trocando de comissão técnica praticamente a cada mau resultado (Márcio Bittencourt em 2009 e Dado Cavalcanti em 2010). É importante manter não só o elenco (apesar dos reforços) como o treinador durante parte da temporada, visando desde janeiro o projeto maior do ano, que é o acesso à Série C. O Estadual não é um classificatório à 4ª divisão como também um "laboratório" para o time.
Elenco
Grupo de jogadores enxuto, possivelmente com nomes da região, e homogêneo. Não adianta trazer algum atleta com salário muito acima dos demais, comprometendo a receita para outros reforços. Neste caso, é melhor dois jogadores de R$ 20 mil do que um de R$ 40 mil. Com investimentos escassos, as folhas dos maiores clubes nas últimas divisões raramente passam de R$ 300 mil.
Base
A categoria de base é tratada como fonte primordial de reforços. O nível técnico duvidoso das últimas divisões nacionais facilita o lançamento de novos atletas durante a capanha . Além do custo bem mais barato, uma possível revelação pode gerar um caixa suficiente para reforçar o caixa do clube no ano seguinte, levando em conta o acréscimo na folha de pagamento numa divisão acima.
Salário em dia
Salários e premiações absolutamente em dia. Apesar do discurso de que os jogadores não deixam apresentar um bom futebol por causa de atrasos na atrasos na folha, o acerto de contas impõe força à diretoria no momento de cobrar o grupo em jogos decisivos, como mata-mata.
Presidente presente
Presença constante do presidente do clube no dia a dia. O próprio FBC fez um mea culpa sobre a sua ausência no Arruda, por causa de suas outras atribuições (secretaria de desenvolvimento econômico e Suape). Este ano, o principal contato entre jogadores e o clube foi feito pelo diretor remunerado Raimundo Queiroz. O contato diário (ou quase diário) do mandatário com o elenco reforça o compromisso em relação ao objetivo. No caso, ao acesso.
Torcida
Pressão em casa. O mando de campo precisa ser aproveitado. No caso do Santa, a média de público preenche este ítem (em quatro jogos nesta Série D o índice foi de 30.238). Porém, a pressão acaba virando contra o próprio time, com jogadores desacostumados a grandes públicos. Neste caso, apoio psicológico pode ser importante.
Nenhum comentário:
Postar um comentário